Há bem pouco tempo subi e desci a Av. da Liberdade. Foi um exercício que não fazia há alguns anos. E foi constrangedor. Por vários motivos.
Sabendo que o “fenómeno” da crise está agora na mira de qualquer "ilustre comentador social", ou que serve para (quase) tudo explicar, outra coisa se passava ali... não era esse o argumento que me mostrava a antiga avenida para explicar o que via.
Apesar da hora, já avançada, para um dia de semana, estávamos em plena quadra natalícia. Pouco passava da meia-noite. Desde o Hard Rock até ao Marquês, contei mais pessoas deitadas no chão do que viandantes entre passeios. Coisa normal, diriam os mais acostumados a por alí passar. Mas não... A certa altura, na única “esplanada” aberta, algumas pessoas confraternizavam com os donos da(s) casa(s) comerciais fazendo assim passar a ideia de uma família alegre e unida em torno de um negócio rentável. Eram não mais do que os únicos (conhecidos) a fazer despesa naquela avenida.
Na grande alcatifa vermelha em frente à loja da Timberland pernoitavam 5 pessoas que se tentavam aconchegar entre caixotes e sacos-cama, enquanto que, mais à frente, um senhor da Prosegur olhava, atento, para o vazio humano que lhe ocupava o horizonte. Tinha como companhia a mendiga que declamava, constantemente, o seu infortúnio desde que nasceu, apesar de gritar para quem passava: "quem sóis mais do que eu? Eu sou uma bela mulher!!!"
Na descida, pelo lado oposto, nas paragens e nos canteiros, por baixo de alguns toldos de café o cenário era sensivelmente o mesmo, mudando apenas a cor e o aspecto dos parcos mantimentos de quem se aninhava na sua "casa". Um pouco menos de barulho, menos luminosidade nas montras das lojas, uma carrinha que limpava as ruas e pouco mais... muito pouco mais!
Ao chegar ao final da avenida, uma inesperada visita de alguém que estava perdido, mas caminhava, a pé, apesar do rumo incerto...
Não sei se pela hora, se pelo (algum) frio, se pela simples noite de semana, se por estarem em casa com as famílias, ou até por estarem ainda a digerir o jantar de dia 24. O que é facto é que o Hard Rock estava cheio, e o que é facto é que a Av. da Liberdade não era assim...