Pois é... vá lá, vá lá que ainda não se paga para escrever ou para
dizer o que quer que seja... vá lá, vá lá que ainda não somos taxados
por utilizar um template gratuito do blogger...
Quando a
contentação do "vá lá, vá lá" chega efectivamente a fazer parte do
imaginário de conforto de cada um, em que a lógica do "ainda bem que
temos alguma coisa" é a base do contentamento... vamos mal. Muito mal
mesmo. A mediocridade da tabela de valores (económicos e sociais) a que
nos temos vindo a habituar é pobre, muito pobre, sob o ponto de vista da qualidade,
daquilo que podemos e almejamos enquanto realização pessoal,
profissional e social.
E sendo a qualidade um dos
conceitos mais difíceis de discutir, podemos fazer o simples exercício
de apontar quais são os nossos actuais valores! Os sociais... Temos algum
conceito social (de ajuda, altruismo, apoio, concretização) que vejamos estar a ser cumprido na sua plenitude? Daqueles sobre os quais
pautamos (ou gostaríamos de ver pautadas) as nossas atitudes? Há alguma
pessoa (se sim, quantas e em que lugares estão) que seja a nossa
referência de valor social, de quem devemos perseguir, imitar, percorrer
os mesmos passos na tentativa de chegar onde chegou, pelos meios que
chegou? Pois é, fica o desafio.
E económicos? Vale o
contentamento do valor (seja monetário ou não) do trabalho que temos?
Qual é a "remuneração" do mesmo? Em dinheiro, por exemplo, que justifique o
contentamento? Se ele agora já não chega para o que fazíamos, e se ainda
por cima estamos (porque estamos mesmo todos) a fazer um esforço para
poupar, continua a fazer sentido olhar para baixo e agradecer por não
estarmos (ainda) naquele lugar?
"Muito bem estamos
nós, que ainda temos ordenado", ouve-se com alguma frequência. Ou então, "cheios de sorte estamos nós que ainda temos trabalho". Ora, mas
então o trabalho está em saldo? Coloca-se a hipótese de se trabalhar,
apenas e só porque sim? Para ajudar a construir o quê para quem? Pois
é... quando o contentamento aparece ou "acontece" de quem olha para baixo e diz:
"realmente há quem esteja pior" não podemos sequer pensar em melhorar,
em criar valor de riqueza ou sequer direito a ter isso mesmo. Porque
ficamos automaticamente sem direito a exigir, sem direito a pedir mais. É
mau, é péssimo haver quem esteja pior do que nós. É péssimo haver
sequer quem esteja mal, trabalhando para que assim não seja... é um facto! Mas se daí advém o
contentamento, a acomodação, certamente não sairemos do estado em que
estamos, porque, infelizmente, haverá certamente sempre alguém pior do
que nós. Porque se não houver, então...
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
Exclusividades online?
- “Tens que estar lá!” ... “não podes deixar de estar lá” ...
- "Onde?
- "Na web!
E isso é o quê? Alguém a sabe delimitar? Não interessa, parece...
É interessante ver que todos sabem que têm que lá estar para ser ou fazer qualquer coisa... ou o que quer que seja, desde que seja “lá”.
Parece esse o lema, hoje, mesmo sem sabermos o porquê de ter que estar ou de sequer sabermos o porquê do que isso é. Porque estão lá as grandes empresas? Porque é lá que se passa o stress diário enquanto passam as horas de expediente? Porque os pagamentos numa larga faixa etária já são (exclusivamente) feitos lá? Porque é lá que comunicamos? E que tipo de comunicação... será porque é nova e, portanto, atraente?
Escrevo durante o Upload Lisboa, um evento que junta “pensadores” da tecnologia e das redes sociais, homens e mulheres do mercado, da investigação mas, sobretudo, utilizadores a quem prestamos o nosso respeito, que sabem que é importante estar presente e sabem que é importante falar sobre estas coisas... mas porquê?
Sabemos que temos que nos reinventar, seja de que forma for. Sabemos que há uma nova vaga em que temos que ser criativos, dinâmicos, originais, vanguardistas, dinâmicos, etc, etc, etc... mas como é que isso se faz?
O “trend” das pessoas está assim, novamente, em cima da mesa... mas desta vez não para contar histórias, não para criar videos, ou inventar narrativas cinematográficas ou mesmo contar "estórias" como antigamente. Está, isso sim... virado e criado para influenciar... as pessoas! O benefício que daí advém, como as influenciamos e como as fazemos tomar decisões e optar por atitudes ou comportamentos que queremos que tenham - aí entra a Psicologia da Web, cujas variáveis são apresentadas como as ferramentas de contexto pessoal enquanto indivíduios envolvidos numa determinada cultura. Tudo isso “domina” a nossa forma de actuação - na web - e cria, cada um de nós, como portenciais criadores/utilizadores simultâneos, de, e na web!
Pois assim de repente, o que parece mesmo é que precisamos de saber mais uns dos outros... mais histórias dos nossos vizinhos, mesmo que sejam “amigos” do Facebook, followers do Twitter ou colegas do Linkedin...
Será porque esta suposta rede que nos devia aproximar está a falhar numa das suas maiores (e mais desejadas) potencialidades?
Ou será que estamos a transferir para um “novo espaço” desejos físicos e pessoais de influência e determinação que não conseguimos fazer offline?
- "Onde?
- "Na web!
E isso é o quê? Alguém a sabe delimitar? Não interessa, parece...
É interessante ver que todos sabem que têm que lá estar para ser ou fazer qualquer coisa... ou o que quer que seja, desde que seja “lá”.
Parece esse o lema, hoje, mesmo sem sabermos o porquê de ter que estar ou de sequer sabermos o porquê do que isso é. Porque estão lá as grandes empresas? Porque é lá que se passa o stress diário enquanto passam as horas de expediente? Porque os pagamentos numa larga faixa etária já são (exclusivamente) feitos lá? Porque é lá que comunicamos? E que tipo de comunicação... será porque é nova e, portanto, atraente?
Escrevo durante o Upload Lisboa, um evento que junta “pensadores” da tecnologia e das redes sociais, homens e mulheres do mercado, da investigação mas, sobretudo, utilizadores a quem prestamos o nosso respeito, que sabem que é importante estar presente e sabem que é importante falar sobre estas coisas... mas porquê?
Sabemos que temos que nos reinventar, seja de que forma for. Sabemos que há uma nova vaga em que temos que ser criativos, dinâmicos, originais, vanguardistas, dinâmicos, etc, etc, etc... mas como é que isso se faz?
O “trend” das pessoas está assim, novamente, em cima da mesa... mas desta vez não para contar histórias, não para criar videos, ou inventar narrativas cinematográficas ou mesmo contar "estórias" como antigamente. Está, isso sim... virado e criado para influenciar... as pessoas! O benefício que daí advém, como as influenciamos e como as fazemos tomar decisões e optar por atitudes ou comportamentos que queremos que tenham - aí entra a Psicologia da Web, cujas variáveis são apresentadas como as ferramentas de contexto pessoal enquanto indivíduios envolvidos numa determinada cultura. Tudo isso “domina” a nossa forma de actuação - na web - e cria, cada um de nós, como portenciais criadores/utilizadores simultâneos, de, e na web!
Pois assim de repente, o que parece mesmo é que precisamos de saber mais uns dos outros... mais histórias dos nossos vizinhos, mesmo que sejam “amigos” do Facebook, followers do Twitter ou colegas do Linkedin...
Será porque esta suposta rede que nos devia aproximar está a falhar numa das suas maiores (e mais desejadas) potencialidades?
Ou será que estamos a transferir para um “novo espaço” desejos físicos e pessoais de influência e determinação que não conseguimos fazer offline?
terça-feira, 15 de maio de 2012
Os (des)contos da Feira do Livro
O fotógrafo brasileiro Araquém Alcântara deve estar com um sorriso de orelha a orelha por ter um livro à venda por... 119€ na Feira do Livro, este ano. É verdade... ainda por cima com 80% de desconto fica por cerca de 24€, que é, a ver pelo expositor, um dos baluartes da montra este ano. Encontra-se o mesmo livro, em vários locais, por cerca de 40€ ou mesmo 35€ dado o ano “longínquo” em que foi publicado! É certo que ainda assim, vale o desconto. Registe-se que, a ver pela qualidade e trabalho investido, valerá muito mais, certamente.
Mas não sei se o fotógrafo ficará satisfeito pela sua obra ter sido exageradamente sobrevalorizada para dar “capa de expositor” (coisa que, numa primeira análise até poderia ser interessante para o mesmo) ou se... por outro lado, e porque razão, subitamente o seu livro desceu 80% na “consideração” de quem o “mostra”, para atingir o objectivo pretendido.
Aconteceu o mesmo com um outro livro de... Pintura... mais à frente, outro de... Design, e depois outro de Fotografia, mas de um autor “de cá”, mas dos quais não tenho o privilégio de conhecer, a não ser o espólio! Apesar de acreditar que teriam sentimentos próximos ou semelhantes no espanto aos do fotógrafo brasileiro, confesso.
Não está em causa a qualidade inferior (nem de perto), muito menos a causa destas situações. O interessante é perceber quais as obras que, curiosamente em simultâneo, descem a pique em tempo de crise... uns chamam-lhe ócio, outros lazer, outros ainda ocupação de “tempos livres”. E não se lembram que tanto do que hoje vemos, ouvimos e sensoriamos, vem de grandes mestres da pintura, design, fotografia, entre outros. E assim vamos fazendo com que a cultura, a preço mais acessível, esteja efectivamente mais acessível ao público em geral... O engraçado mesmo é ter lá passado depois e ter registado que, nem assim, as pessoas a chegam a comprar...
É como noutra tantas situações... as pessoas até lêem... não lêem é jornais!!!
Mas não sei se o fotógrafo ficará satisfeito pela sua obra ter sido exageradamente sobrevalorizada para dar “capa de expositor” (coisa que, numa primeira análise até poderia ser interessante para o mesmo) ou se... por outro lado, e porque razão, subitamente o seu livro desceu 80% na “consideração” de quem o “mostra”, para atingir o objectivo pretendido.
Aconteceu o mesmo com um outro livro de... Pintura... mais à frente, outro de... Design, e depois outro de Fotografia, mas de um autor “de cá”, mas dos quais não tenho o privilégio de conhecer, a não ser o espólio! Apesar de acreditar que teriam sentimentos próximos ou semelhantes no espanto aos do fotógrafo brasileiro, confesso.
Não está em causa a qualidade inferior (nem de perto), muito menos a causa destas situações. O interessante é perceber quais as obras que, curiosamente em simultâneo, descem a pique em tempo de crise... uns chamam-lhe ócio, outros lazer, outros ainda ocupação de “tempos livres”. E não se lembram que tanto do que hoje vemos, ouvimos e sensoriamos, vem de grandes mestres da pintura, design, fotografia, entre outros. E assim vamos fazendo com que a cultura, a preço mais acessível, esteja efectivamente mais acessível ao público em geral... O engraçado mesmo é ter lá passado depois e ter registado que, nem assim, as pessoas a chegam a comprar...
É como noutra tantas situações... as pessoas até lêem... não lêem é jornais!!!
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A contemplação
"Agora não posso" ... "amanhã não dá jeito"... "para a semana talvez seja melhor". Independentemente da desculpa ou da companhia, há quanto tempo não contemplamos o que quer que seja? No sentido mais abrangente da palavra, apreciando, a seu tempo, o que "o criador" decidiu fazer, podendo mesmo até esquecer o porquê... Seja uma fotografia, uma paisagem, uma rua, uma praia, uma pintura, o que quer que seja... e pensamos sobre isso ou até sobre o que isso nos pode fazer sentir, pensar ou recordar?
Coloquemos a razão de lado. Até por isso, a contemplação acaba por ser uma coisa boa. Não precisa de ser justificada pela lógica racional. Serve até para nos abrigarmos nesse cantinho onde ninguém poderá perguntar: "então mas afinal... porquê?" Não! Isso não é suposto acontecer, até porque a contemplação é uma actividade auto-suficiente na sua própria existência... e tem contornos tanto de natural como de "ingénua". Gosta-se pela simples actividade que encerra em si mesma! Já dizia um senhor (há muitos anos) que a contemplação seria a maior felicidade alcançável pelo espírito humano. Não por ser um estado, mas uma actividade (que apesar de não poder ser realizada incessantemente) só poderia ser efectivada através da utilização "elevada" do nosso intelecto.
Fazendo crer que daí poderemos até retirar alguma ideias, alguma paz ou alguns pontos de (re)equilíbrio, seja intelectual ou emocional, certo é que a contemplação não nos deixa indiferentes. E isso é sempre salutar - termos reacção, respostas a estímulos, etc... O que parece estar a acontecer é uma generalizada demissão do acto de contemplar (não necessariamente propositada ou voluntária) mas que vai servindo para datar as conversas sobre fotografia, pintura, escultura - e até cinema - num espaço com muita idade, como se a produção tivesse (quase) deixado de existir. E não é necessariamente falta de cultura visual ou artística...
Gostos à parte, (e em época de World Press Photo), se percebermos que a própria actividade de contemplar algo serve para dar mais elasticidade ao nosso cérebro, teremos uma razão para, por si só, justificarmos a próxima ida a uma qualquer exposição. Se não for esse o caso, e porque a razão não é para aqui chamada, então façamo-lo porque gostamos mesmo do que vamos ver. Aí sim, o estágio máximo a que se referia "o senhor antigo" será, supostamente, atingido.
Coloquemos a razão de lado. Até por isso, a contemplação acaba por ser uma coisa boa. Não precisa de ser justificada pela lógica racional. Serve até para nos abrigarmos nesse cantinho onde ninguém poderá perguntar: "então mas afinal... porquê?" Não! Isso não é suposto acontecer, até porque a contemplação é uma actividade auto-suficiente na sua própria existência... e tem contornos tanto de natural como de "ingénua". Gosta-se pela simples actividade que encerra em si mesma! Já dizia um senhor (há muitos anos) que a contemplação seria a maior felicidade alcançável pelo espírito humano. Não por ser um estado, mas uma actividade (que apesar de não poder ser realizada incessantemente) só poderia ser efectivada através da utilização "elevada" do nosso intelecto.
Fazendo crer que daí poderemos até retirar alguma ideias, alguma paz ou alguns pontos de (re)equilíbrio, seja intelectual ou emocional, certo é que a contemplação não nos deixa indiferentes. E isso é sempre salutar - termos reacção, respostas a estímulos, etc... O que parece estar a acontecer é uma generalizada demissão do acto de contemplar (não necessariamente propositada ou voluntária) mas que vai servindo para datar as conversas sobre fotografia, pintura, escultura - e até cinema - num espaço com muita idade, como se a produção tivesse (quase) deixado de existir. E não é necessariamente falta de cultura visual ou artística...
Gostos à parte, (e em época de World Press Photo), se percebermos que a própria actividade de contemplar algo serve para dar mais elasticidade ao nosso cérebro, teremos uma razão para, por si só, justificarmos a próxima ida a uma qualquer exposição. Se não for esse o caso, e porque a razão não é para aqui chamada, então façamo-lo porque gostamos mesmo do que vamos ver. Aí sim, o estágio máximo a que se referia "o senhor antigo" será, supostamente, atingido.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
"Os gajos..."
É uma expressão comum... "os gajos" são tudo e não são nada, mas sempre ao mesmo tempo, curiosamente. Indissociáveis duma qualquer conversa de almoço ou jantar, mesmo que seja por pouco tempo. Ou mesmo entre um café e um cigarro. Ainda que haja tempo, durante a semana, para se discutir sobre alguns assuntos, facto é que, saber quem faz o quê, não é muito importante nos tempos que correm, até porque serão eles... "os gajos" os culpados de tudo. Então vejamos de que é que eles têm culpa. Ainda agora ouvi: "epá, os gajos agora com esta cena do Carnaval entalaram-me bem"... e logo de seguida... "epá, e então aquela cena que os gajos agora inventaram dos pórticos ou o canéco..." e alguns minutos depois: "ouve lá, tu tem cuidado que agora os gajos estão a apertar com os limites dos pagamentos". Isto tudo em locais diferentes da mesma Lisboa.
Ou seja, "eles" serão maus, muito maus, ao que parece... são uma forma de "Zé", mas no plural, provavelmente vestidos de fato escuro e gravata lisa mas colorida, e que andam pelas zonas nobres da cidade, de carro, uns até com motorista privado. Ou então são a simples normalidade da sociedade e um bando (sim, porque actuam em bando) que, refestelados nas poltronas dos seus gabinetes decidem, de livre arbítrio, sem rei nem roque, o que bem lhes vai na alma para definirem o que de melhor, pensarão "eles" para (des)coordenar a maquete.
O certo é que "os gajos" vieram para ficar e serão, doravante, mais citados do que nunca. Em tempos como os de hoje (seja lá isso o que for), dá sempre mais jeito generalizar do que apontar o dedo, mesmo que se saiba a quem apontar - pode não dar muito jeito para um qualquer familiar. Assim, "os gajos" são uma matéria viva mas incógnita no sentido físico, e até humano, do termo. Não sabemos quando pegam ao serviço, onde trabalham, com quem comunicam mas são, certamente, um dos ícones mais citados dos nossos tempos...
Ou seja, "eles" serão maus, muito maus, ao que parece... são uma forma de "Zé", mas no plural, provavelmente vestidos de fato escuro e gravata lisa mas colorida, e que andam pelas zonas nobres da cidade, de carro, uns até com motorista privado. Ou então são a simples normalidade da sociedade e um bando (sim, porque actuam em bando) que, refestelados nas poltronas dos seus gabinetes decidem, de livre arbítrio, sem rei nem roque, o que bem lhes vai na alma para definirem o que de melhor, pensarão "eles" para (des)coordenar a maquete.
O certo é que "os gajos" vieram para ficar e serão, doravante, mais citados do que nunca. Em tempos como os de hoje (seja lá isso o que for), dá sempre mais jeito generalizar do que apontar o dedo, mesmo que se saiba a quem apontar - pode não dar muito jeito para um qualquer familiar. Assim, "os gajos" são uma matéria viva mas incógnita no sentido físico, e até humano, do termo. Não sabemos quando pegam ao serviço, onde trabalham, com quem comunicam mas são, certamente, um dos ícones mais citados dos nossos tempos...
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Vizinhos e vizinhança
Um exercício que poderá ser interessante fazer consiste em perceber quantos "seres" fazem parte do nosso leque de vizinhos... quem são, onde estão e o que são em relação a nós! Da última pesquisa, rápida, confesso, ao dicionário, a palavra "vizinho" não tinha sofrido quaisquer alterações. Continuava a ser a tradicional pessoa com quem, antigamente, partilhávamos o espaço comum, urbano por natureza, segundo a "terminologia" e tantas vezes semelhante... até nas compras que fazia.
A lógica de perpetuar esse conceito fará todo o sentido se almejarmos um estatuto que a própria palavra encerra, na lógica das unidades residenciais que, outrora deram origem à dita terminologia. Ou então se pretendermos continuar a dizer "olá, bom dia" ou "bom fim-de-semana", coisa que, mais que não seja, e por uma questão de educação, já não se ouve tanto quanto isso.
O que agora dividimos, mais do que o espaço físico com alguém que mal conhecemos é um espaço diferente. Com as devidas ressalvas, bem entendido. E é um espaço em que até conseguimos ver e ouvir quem está do outro lado. E até sabemos quase tudo sobre essas pessoas ou, pelo menos, o que elas nos deixam (entenda-se querem) que nós saibamos. Trata-se, efectivamente, de um ser existente, fisicamente, mas distante no espaço, que é claramente (para alguns) mais atraente porque é, resumidamente, mais "confortável".
E esse conforto é, tantas vezes, tão egoista...
A lógica de perpetuar esse conceito fará todo o sentido se almejarmos um estatuto que a própria palavra encerra, na lógica das unidades residenciais que, outrora deram origem à dita terminologia. Ou então se pretendermos continuar a dizer "olá, bom dia" ou "bom fim-de-semana", coisa que, mais que não seja, e por uma questão de educação, já não se ouve tanto quanto isso.
O que agora dividimos, mais do que o espaço físico com alguém que mal conhecemos é um espaço diferente. Com as devidas ressalvas, bem entendido. E é um espaço em que até conseguimos ver e ouvir quem está do outro lado. E até sabemos quase tudo sobre essas pessoas ou, pelo menos, o que elas nos deixam (entenda-se querem) que nós saibamos. Trata-se, efectivamente, de um ser existente, fisicamente, mas distante no espaço, que é claramente (para alguns) mais atraente porque é, resumidamente, mais "confortável".
E esse conforto é, tantas vezes, tão egoista...
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Av. da Liberdade
Há bem pouco tempo subi e desci a Av. da Liberdade. Foi um exercício que não fazia há alguns anos. E foi constrangedor. Por vários motivos.
Sabendo que o “fenómeno” da crise está agora na mira de qualquer "ilustre comentador social", ou que serve para (quase) tudo explicar, outra coisa se passava ali... não era esse o argumento que me mostrava a antiga avenida para explicar o que via.
Apesar da hora, já avançada, para um dia de semana, estávamos em plena quadra natalícia. Pouco passava da meia-noite. Desde o Hard Rock até ao Marquês, contei mais pessoas deitadas no chão do que viandantes entre passeios. Coisa normal, diriam os mais acostumados a por alí passar. Mas não... A certa altura, na única “esplanada” aberta, algumas pessoas confraternizavam com os donos da(s) casa(s) comerciais fazendo assim passar a ideia de uma família alegre e unida em torno de um negócio rentável. Eram não mais do que os únicos (conhecidos) a fazer despesa naquela avenida.
Na grande alcatifa vermelha em frente à loja da Timberland pernoitavam 5 pessoas que se tentavam aconchegar entre caixotes e sacos-cama, enquanto que, mais à frente, um senhor da Prosegur olhava, atento, para o vazio humano que lhe ocupava o horizonte. Tinha como companhia a mendiga que declamava, constantemente, o seu infortúnio desde que nasceu, apesar de gritar para quem passava: "quem sóis mais do que eu? Eu sou uma bela mulher!!!"
Na descida, pelo lado oposto, nas paragens e nos canteiros, por baixo de alguns toldos de café o cenário era sensivelmente o mesmo, mudando apenas a cor e o aspecto dos parcos mantimentos de quem se aninhava na sua "casa". Um pouco menos de barulho, menos luminosidade nas montras das lojas, uma carrinha que limpava as ruas e pouco mais... muito pouco mais!
Ao chegar ao final da avenida, uma inesperada visita de alguém que estava perdido, mas caminhava, a pé, apesar do rumo incerto...
Não sei se pela hora, se pelo (algum) frio, se pela simples noite de semana, se por estarem em casa com as famílias, ou até por estarem ainda a digerir o jantar de dia 24. O que é facto é que o Hard Rock estava cheio, e o que é facto é que a Av. da Liberdade não era assim...
Sabendo que o “fenómeno” da crise está agora na mira de qualquer "ilustre comentador social", ou que serve para (quase) tudo explicar, outra coisa se passava ali... não era esse o argumento que me mostrava a antiga avenida para explicar o que via.
Apesar da hora, já avançada, para um dia de semana, estávamos em plena quadra natalícia. Pouco passava da meia-noite. Desde o Hard Rock até ao Marquês, contei mais pessoas deitadas no chão do que viandantes entre passeios. Coisa normal, diriam os mais acostumados a por alí passar. Mas não... A certa altura, na única “esplanada” aberta, algumas pessoas confraternizavam com os donos da(s) casa(s) comerciais fazendo assim passar a ideia de uma família alegre e unida em torno de um negócio rentável. Eram não mais do que os únicos (conhecidos) a fazer despesa naquela avenida.
Na grande alcatifa vermelha em frente à loja da Timberland pernoitavam 5 pessoas que se tentavam aconchegar entre caixotes e sacos-cama, enquanto que, mais à frente, um senhor da Prosegur olhava, atento, para o vazio humano que lhe ocupava o horizonte. Tinha como companhia a mendiga que declamava, constantemente, o seu infortúnio desde que nasceu, apesar de gritar para quem passava: "quem sóis mais do que eu? Eu sou uma bela mulher!!!"
Na descida, pelo lado oposto, nas paragens e nos canteiros, por baixo de alguns toldos de café o cenário era sensivelmente o mesmo, mudando apenas a cor e o aspecto dos parcos mantimentos de quem se aninhava na sua "casa". Um pouco menos de barulho, menos luminosidade nas montras das lojas, uma carrinha que limpava as ruas e pouco mais... muito pouco mais!
Ao chegar ao final da avenida, uma inesperada visita de alguém que estava perdido, mas caminhava, a pé, apesar do rumo incerto...
Não sei se pela hora, se pelo (algum) frio, se pela simples noite de semana, se por estarem em casa com as famílias, ou até por estarem ainda a digerir o jantar de dia 24. O que é facto é que o Hard Rock estava cheio, e o que é facto é que a Av. da Liberdade não era assim...
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